ENOLA HOLMES e A JORNADA do HERÓI
- Veluxya

- 30 de set. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de out. de 2020
Uma visão sugestiva e análise do filme pela ótica do Tarot (atenção, pode conter spoilers!)

Enola Holmes, no filme Enola Holmes em seu recente lançamento original Netflix, é um belo exemplo do que chamamos " A jornada do herói" no processo espelhado pela trajetória do louco, através dos 22 arcanos maiores do Tarot. A personagem vivida por Millie Bobby Brown pode ser entendida como o arquétipo da carta 'O Louco' experimentando cada uma de suas etapas de evolução, desde seu nascimento, crescimento e expansões, até a construção de seu "eu essencial", evidenciado através da integralização de seu processo de individuação. No Tarot, a jornada do herói é ativada a partir das descobertas do "eu interno" e de sua projeção externa - na figura do herói - em busca de sua personificação.
No filme, Enola estabelece uma conversa com cada um de nós, de modo a nos apresentar seu processo de autoidentidade, a partir da explicação de seu nome que, não coincidentemente, se apresenta pela formação de um código de letras invertidas, com um significado direto para todo e qualquer processo de identificação do eu - a partícula individual. Enola é, na verdade, "alone" que, numa tradução livre do inglês, significa "sozinha", com o sentido de "ensimesmada", de estar com ela mesma em toda a sua experiência. E, é precisamente nessa condição, sofrendo a ruptura da ligação com a mãe, que ela percebe a necessidade de afirmação de suas próprias convicções, de seu livre arbítrio e de sua capacidade de fazer escolhas de forma independente.

Logo no início da trama, a mãe de Enola (Eudoria Holmes, personagem vivida por Helena Bonham Carter) desaparece. Essa circunstância representativa da "perda da referência" revela o estado fragmentado das percepções, e é onde toda a estória começa. Aliás, o nome da mãe também é emblemático, Eudoria (variação de Eudora - 'eudoros') procede do grego e significa "aquela que é generosa, liberal" no sentido de ser 'eu-bom' e 'doron-presente'. Todavia, a mãe faz tudo de forma premeditada e deixa presentes para a filha, novamente sendo generosa e liberal, ordenando que seja entregue a Enola um oráculo de cartas ilustradas (que no filme é chamado de "A Linguagem das Flores"), justamente com o intuito de se tornar a ferramenta que ela irá usar para desvendar mistérios, se autodescobrir e encontrar novos caminhos e possibilidades.
Assim que Enola se desfaz de suas emoções de frustração pelo desaparecimento da mãe, ela se volta para o oráculo e começa sua jornada de heroína e protagonista da própria vida, viajando para Londres, logo em seguida. O oráculo das flores possui um sistema de combinações de letras e números, uma carta universal com a roda de engrenagem que faz a interligação entre todos os elementos gráficos, e o simbolismo das flores e suas mensagens enigmáticas, que Eudoria tratou de criptografar utilizando-se de frases e significados reveladores.

Se observarmos com atenção a beleza dessa representação, podemos ver a riqueza e a importância dos oráculos aqui retratada, não como meio de previsão de futuro ou fixação de destinos, mas exatamente no sentido oposto a isso, como um extraordinário dispositivo de criação e ressignificação, o que nos fornece um caminho ímpar a respeito dos conceitos relativos ao que entendemos como "mistério", uma chave para ligar pontos do passado e atualizá-los na realidade presente.

No filme, o diretor apresenta somente as cartas-chave que Enola irá usar e, num contexto lógico, lúdico e imaginativo, ele nos leva à ideia de que o herói (nossa destemida e inteligente Enola, que ora polariza a energia masculina, ora polariza a feminina representada por suas trocas de traje), o oráculo, os irmãos "coadjuvantes" nas descobertas, os enigmas, a figura icônica de Sherlock Holmes (o famoso personagem fictício de Sir Arthur Conan Doyle), a mãe revolucionária e liberal, os conceitos de valor da Inglaterra do final do séc. XIX, a política, o romance, as decisões e o processo de autoconhecimento, são elementos engenhosamente interligados e atemporais.
Contudo, para além da ideia de realizar o processo de individuação e autorresponsabilização pelas escolhas pessoais da jovem Enola, o filme traz claramente a mensagem de que o futuro é fruto de cada uma das decisões do presente, e o acaso não existe. A própria Eudoria esclarece isso à filha dizendo: "Você pode seguir dois caminhos, Enola, o seu... ou o que os outros escolhem para você." Por isso, antes de qualquer coisa, o conselho de Eudoria para Enola ante a utilização do oráculo foi: "Use os presentes com sabedoria". E, dentro de uma noção sugestiva aqui proposta, podemos pensar também na ambiguidade: "use o seu presente com sabedoria", relativamente às nossas escolhas e o nosso aqui-agora.

Em termos de arcano particularmente citado durante o filme, temos a lâmina 16 do Tarot (Arcano XVI - A Torre), marcando a idade de Enola e sua fase de desconstrução do "eu indiscriminado", pela conexão constituída com Eudoria (nossa heroína foi educada em casa, pela própria mãe), demonstrando a forte construção de uma filha "igual à mãe". Como sabemos, o processo de individuação se dá exatamente pela desconstrução dessa suposta igualdade (Enola e Eudoria não são iguais), e ele é imprescindível para que o indivíduo se veja como um microcosmos individualizado e autossuficiente, embora conectado a uma dimensão muito maior (o macrocosmos da existência). Um dos significados concernentes a esse arcano, fala do caos e do colapso de tudo o que um dia foi construído de forma hermética, sem possibilidade de recriação, sem a flexibilidade do desapego e da ressignificação.
Portanto, embora o processo de individuação seja algo intrínseco e completamente atrelado ao autoconhecimento durante a busca do "eu indivíduo", o filme deixa claro que Enola ainda tem muito o que viver e o processo de autoconhecimento é um exercício contínuo e infinito de "ser quem se nasceu pra ser", o que nos leva de volta ao incício da jornada (que é cíclica), à pergunta "quem sou eu" e às escolhas e decisões com as quais interferimos no mundo ao nosso redor.
E, para coroar esse entendimento e colocar a cereja no bolo, a mensagem fundamental trazida junto à trama, escrita numa das cartas do oráculo e reforçada ao final do filme, é: "Nosso futuro depende de nós".

Crédito Imagens: imagens extraídas diretamente de cenas capturadas do filme na Netflix.
Ficha Técnica: Enola Holmes (Original Netflix)
Título Original: Enola Holmes
Duração: 123 minutos
Ano produção: 2019
Estreia: 23 de setembro de 2020
Distribuidora: Netflix
Dirigido por: Harry Bradbeer
Escrito por Jack Thorne
(baseado na série literária de mesmo nome de Nancy Springer)
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama, Crime, Aventura
Países de Origem: EUA
Sinopse:
Enola Holmes só tem 16 anos, mas vai fazer de tudo para encontrar a mãe desaparecida, inclusive despistar o irmão Sherlock e ajudar um lorde fugitivo.
Elenco:
Millie Bobby Brown, Sam Claflin, Henry Cavill, Helena Bonham Carter, Louis Partridge, Burn Gorman





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