O COELHO E A FEITICEIRA
- Veluxya

- 30 de set. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de out. de 2020
Um conto xamã para entender o arquétipo

No livro Cartas Xamânicas de Jamie Sams e David Carson, a carta do Coelho traz a ideia de enfrentar os medos pessoais (aqueles escondidos no mais íntimo do sentimento) e de como esses medos se relacionam com crenças, superstições e pontos de vista viciados em uma noção sombria da realidade. Nesse livro, cada totem animal (animal de poder) é explicado a partir de lendas que os antigos curandeiros apaches, em especial os do Clã do Lobo, ensinavam sobre isso, a fim de despertar a consciência para a chave de desbloqueio presente em cada representação animal.

Reza a lenda que o Coelho era forte e destemido como um grande guerreiro, e sua melhor amiga era uma feiticeira chamada Olho Andante. Eles eram inseparáveis, viviam juntos e conversavam sobre todo tipo de coisa enquanto viajavam pelo mundo afora.
Olho Andante tinha grande afeição por seu amigo Coelho e atendia a todos os seus desejos, tão rápido quanto ele se manifestasse sobre isso. Certo dia, caminhando por uma longa estrada resolveram parar um pouco para um descanso, e o Coelho falou que tinha sede. A feiticeira pegou uma folha verde do chão, soprou sobre ela e a transformou instantaneamente num belo cântaro cheio de água fresca, entregou ao Coelho, e ele, sem fazer qualquer comentário, bebeu.
Quando ele sentiu fome e disse que estava faminto, Olho Andante apanhou uma pedra da beira da estrada, soprou sobre ela e a pedra se transformou num delicioso e suculento nabo, entregou ao Coelho e ele se fartou daquele alimento sem nada dizer.
Num outro trecho da estrada, enquanto passavam à beira de um desfiladeiro, o Coelho escorregou e rolou precipício abaixo chegando no pé daquela montanha todo esfarrapado e com os ossos quebrados.
Com seus poderes mágicos, Olho Andante chegou até o Coelho e, empregando todos os seu conhecimentos místicos, salvou a vida do Coelho, soldando todos os seus ossinhos e regenerando suas horríveis feridas. E, mesmo assim, o Coelho não disse uma palavra.
De repente, sem que Olho Andante pudesse se dar conta, o Coelho sumiu de suas vistas e ela o procurou por toda parte. Pouco tempo depois, ela topou com ele por acaso e perguntou se ele a estava evitando, se escondendo ou fugindo de sua presença. O Coelho, já muito assustado e arredio respondeu que sim, que estava se esquivando dela por medo de sua magia, e ainda ordenou que ela o deixasse em paz.

O Coelho estava decidido a seguir adiante sozinho e, insultando a feiticeira, disse que não queria ter mais nada a ver com ela ou com seus encantamentos, e que esperava nunca mais vê-la novamente. Suas palavras foram tão rudes que ele não percebeu as lágrimas de Olho Andante enquanto ele proferia esses dizeres.
A feiticeira ficou tão triste que, antes de partir, lembrou ao Coelho toda a jornada que fizeram juntos, em que ela saciou sua sede e sua fome, salvou sua vida e curou suas feridas, tudo pela grande amizade que tinham, e que somente por isso ela não o destruiria, apesar de ter poderes para fazê-lo. Porém, Olho Andante amaldiçoou o Coelho e todos os seus descendentes fazendo com que ficassem sempre 'chamando seus medos' que, daquele momento em diante, seriam parte inseparável de sua personalidade.

Por isso, a lição dessa estória é que o totem do Coelho é um invocador de medos que clama por sua cura interna, baseada em sua incompreensão daquilo que lhe é desconhecido. Traduzido sobre as personalidades, significa que as pessoas que temem doenças, desgraças, mau agouros, tragédias, feitiços, despachos, crendices populares, predições de 'má sorte', previsões de futuro, maldições, juras de vingança e a própria morte, estão atraindo mais disso para si mesmas; estão se curvando ao medo.
A chave de inversão de tudo isso está justamente em compreender profundamente que "tudo aquilo a que se resiste, persiste" e, entrar em permissão com esse ponto de vista é encontrar o antídoto que dissolve do problema. Não resistir é como se despir do coelho medroso e amaldiçoado para voltar a ser o Coelho destemido e guerreiro.
Assim, invocar o totem do coelho é encarar os próprios medos e a fraqueza das próprias convicções. É compreender que, ter pensamentos ou sentimentos de medo não significa ter que vivê-los. Pode-se, ao invés disso, simplesmente testemunhá-los, diminuí-los e neutralizá-los pelo poder do autoconhecimento e da autoexpansão.
Nada tem poder contra você até que você mesmo dê poder para isso te afetar.
"Nada negativo pode ser mandado a você se você se lembrar de rir!"






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